terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

"Parva que sou" ou o grito de uma geração?

«De uma forma directa, simples, sem rodeios, e sublinhada por uma música apropriada, "Parva que sou" fala do que a maioria dos jovens sente e sobre o que eles passam hoje para poderem ter uma vida própria. Nessa medida, esta música é o retrato de uma geração. Uma geração desencantada com o investimento que fez nos seus estudos e do qual sente que verdadeiramente não foi compensada (que mundo tão parvo/onde para ser escravo é preciso estudar). Uma geração vítima do endeusamento da flexibilidade laboral, da precariedade e dos esquemas para ocupar os jovens a troco de remunerações reduzidas (já é uma sorte eu poder estagiar). Uma geração que, por isso, vive até cada vez mais tarde dependente material e financeiramente dos seus pais (Sou da geração ‘casinha dos pais’,/se já tenho tudo, pra quê querer mais?). Uma geração que adia até cada vez mais tarde a assumpção de compromissos pessoais e afectivos e a decisão de constituir família (Filhos, maridos, estou sempre a adiar).

O êxito desta canção está, assim, na sua força em abordar os problemas reais, concretos, vivenciais da geração daqueles que terão menos de 30 anos e que vivem quotidianamente a angústia da precariedade, do desemprego, da exploração laboral e da decepção em relação às expectativas que para si próprios criaram, muitas vezes com o estímulo do mesmo Estado que agora lhes falta. (...)

Que os responsáveis políticos percebam a mensagem! E que compreendam que os limites estão a atingir-se. E que se impõe, com urgência, na vida, na política e no mercado de trabalho, o regresso da Ética!»


Jorge Costa Pereira, in Tribuna das Ilhas, 11.02.2011.

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